sábado, 27 de maio de 2017

Um Deserto Estressante

Muitas religiões ao longo da história da humanidade apresentaram à seus adeptos ícones do movimento, figuras singulares que tomaram o lugar de liderança, influência e sem dúvida foram formadores de opinião bem como do movimento em si. Algumas dessas religiões (quase todas para ser sincero), possuem algum tipo de “ritual de passagem”, algo que inicia a caminhada do adepto, que segundo as crenças da mesma, o líder, o primogênito do seguimento já havia passado também.

Em realidade, desde os mitos gregos até figuras modernas como Martin Luther King Jr. tiveram seus “rituais de passagem”. O antropólogo Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces, rastreou o que ele chamou de A Jornada do Herói, em outras palavras, após anos de pesquisa, foi possível demonstrar em que crisol é formado um herói e quais os ingredientes são necessários para o surgimento da icônica figura, quer seja religiosa ou política.

Tais ingredientes, ou princípios, foram usados para criar personagens como Batman e Homem Aranha por exemplo, personagens que perdem a figura paterna e induzidos pelo trauma decidem mudar o mundo. Encaram um “ritual de passagem” (a mutação genética pela mordida de uma aranha), encontram um mentor (o mordo Alfred) e se lançam à jornada.

Pois bem, na vida real também não é diferente, haja vista Steve Jobs que apesar de sua tempestuosa personalidade, é por muitos considerado um verdadeiro herói, e de fato, temos que concordar que graças a ele muita coisa no mundo mudou. Para quem leu sua biografia ou pesquisou um pouco sua história com um olhar mais apurado, percebeu elementos “heróicos" que o impulsionaram para uma verdadeira odisséia no mundo da computação pessoal.

Figuras como o já citado Luther King, bem como Mandela, Gandhi, Maomé e tantos outros possuem os mesmos elementos em sua trajetória, e não seria diferente na cultura judaica-cristã que possui como figuras centrais Moisés e o messias chamado Jesus. Embora para a grande maioria dos adeptos, Jesus Cristo seja o centro de sua fé e possua em sua história elementos regados com aspectos sobrenaturais, ambos possuem elementos perfeitamente rastreáveis pelas ciências humanas em sua jornada heróica tal como os heróis já mencionados.

Talvez nesse momento o leitor deva estar se perguntando: então Moisés, Cristo, Mandela, Gandhi, Batman e o Homem Aranha estão no mesmo patamar? São apenas heróis construídos por aspectos semelhantes e eventos rastreáveis? Pois bem, é aqui que gostaríamos de chegar!

Vamos deixar de lado aspectos sobrenaturais e não nos deteremos à “forças malignas”, milagres e outros elementos cuja investigação cientifica não seja possível. Seguiremos adiante analisando aspectos da vida de Cristo que podem ser interpretados, analisados e criticados à luz das ciências humanas. Para ser mais exato, neste momento nos deteremos a alguns aspectos do “ritual de passagem” que Cristo enfrentou no inicio de sua jornada, o deserto.

Para tal analise, usaremos como fonte histórica um autor não judeu, mas grego, de alta cultura e que embora não tenha conhecido Jesus pessoalmente, fez de sua capacidade investigativa, que possuía como médico, o meio para buscar “testemunhas oculares”, o que é um requisito importantíssimo para “acurada investigação de tudo desde sua origem”, dando-nos por escrito uma biografia que conhecemos hoje como O Evangelho Segundo Lucas, que para ser mais exato, poderia ser segundo o Dr. Lucas.

Pois bem, com base no relato do autor, que era herdeiro dos princípios de Hipócrates e que possuía um raciocino lógico, caso contrário não lhe seria possível uma “acurada investigação”, Cristo passou 40 dias no deserto sem comer, e para espanto do médico, o relato menciona que Jesus se submeteu a essa provação espontaneamente!

O biógrafo, sabia dos limites do corpo humano, entendia como médico que com apenas três dias sem água há uma profunda desidratação e sem comer por 40 dias, além da drástica perda de peso, o nível de estresse é altamente elevado e a perda da sobriedade seria certa graças a severa desnutrição. Delírios e perda da racionalidade são coisas comuns em um estágio como esse. Jesus deve ter emagrecido quase até a morte.

Cabe ressaltar que em situações de extrema necessidade, sobretudo alimentar, dificilmente há solidariedade, tolerância, nem capacidade mental de se desenvolver um raciocínio complexo. Os instintos de sobrevivência afloram, pensar antes de agir torna-se praticamente impossível. No contexto da história do judaísmo por exemplo, podemos citar os campos de concentração nazistas, onde sob severas provações, muitos judeus torturados pela fome tinham reações nada altruístas, escondiam alimentos, omitiam, dissimulavam e traíam até mesmo seus familiares por um pedaço de pão apenas, embora fossem boas pessoas fora dessa dramática e estressante situação.

Voltando a nossa analise, onde encontramos o Herói da vez com o corpo esmagado pela fome, temos que concordar que humanamente falando, é loucura alguém decidir passar por uma prova dessas por livre e expontânea vontade, e talvez o leitor pense: isso não só é loucura como é irreal, mitológico, fantasioso! Mas cabe lembrar e nos questionar do por que então, um médico decidiu superar os preconceitos étnicos entre gregos e judeus, lançar mão de sua profissão e dedicar talvez anos de sua vida para investigar pessoalmente a história do carpinteiro de Nazaré. Mais do que muitos de nós que somos leigos quanto aos limites do corpo humano, Lucas era especialista no assunto, sabia exatamente o que estava escrevendo, além de já ter afirmado que sua narrativa seria criteriosa.

O autor continua narrando e como se não bastasse, o texto menciona que ao final dos 40 dias Cristo teve fome, o que nos leva ao questionamento: e nos dias anteriores? Não estava faminto? É óbvio que sim, mas talvez o autor tenha feito menção apenas no final da jornada, indicando sutilmente que o processo de interiorização de Cristo foi tão profundo que suprimiu o desejo, a necessidade de alimento.

O que a ciência sabe sobre isso, é que em casos de terremotos ou tragédias como o ataque as Torres Gemias, em que pessoas ficam presas por dias em meio aos escombros, de alguma forma, talvez movidas pela esperança de serem encontradas e o desejo de viver, o cérebro trabalha com tamanha força mental que as preserva fisicamente vivas a despeito das necessidades do momento. Como isso ocorre? Ainda é um mistério para a medicina.

Agora o que é mais estarrecedor, é que a biografia descreve Cristo sendo provocado intelectualmente no extremo estado que se encontrava, justamente onde não havia espaço para o intelecto. A despeito de quem o provocou ou se Jesus tinha ou não poderes para suprimir as leis da física e mudar a matéria, transformando pedras em pães, Lucas relata que não só o Herói foi desafiado intelectualmente como respondeu em nível superior, só isso é suficiente para deixar qualquer amante das ciências humanas atônito.

Tomemos nota da resposta: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Há vários aspectos curiosos nessa citação, mas vamos nos deter em primeiro lugar ao fato de que é um pensamento, uma resposta que segue um raciocínio lógico, em segundo, Cristo usou conscientemente uma critica comparativa: um alimento físico versus um alimento metafísico. E como se não bastasse, extrapolando os limites dos limites, sua resposta esboçava comparativamente a sobrevivência humana temporal proporcionada pela pão de trigo, com a sobrevivência atemporal, proporcionada diretamente pelo que Jesus considerava ser o Autor da sua existência. É como se Cristo preferisse morrer fisicamente mesmo depois de tudo o que passou durante 40 dias, do que se desconectar do seu Deus!

Embora seja impossível para a ciência investigar tais aspectos, é assombroso percebermos que mesmo enquanto cada célula do corpo de Jesus estavam a beira de um colapso, ele escandalizava a medicina poetizando o maior sonho dos mortais: a imortalidade. Sem contar que dependendo dos níveis de estresse o instinto prevalece sobre o raciocínio (como já relatado), levando o ser humano a cometer atos impensáveis. Nosso Herói no entanto, foi levado ao limite dos limites e não sucumbiu aos instintos, preservou sua consciência crítica.

Sejamos francos, a maioria dos seres humanos não suportaria minimamente tamanha presão ao longo da vida. Lucas escreve como um louco, mas era médico e lúcido investigador e por isso talvez tenha sido impossível para ele não ter sido cativado pela avassaladora lucidez demonstrada por Cristo em uma situação tão caótica.

Logo, o que podemos esperar a mais da personalidade bem como das ações e reações dessa icônica figura? Quais aspectos da história de Jesus mais cativaram o refinado médico grego? 

Continua…

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Conceito de Deus - Parte I


Por natureza, nós humanos somos seres dotados de capacidade racional e por assim ser, somos incapazes de mantermos um posicionamento puramente arbitrário ou tomarmos decisões sem nenhum conjunto de princípios ainda que meramente pessoais.

Possuímos uma avassaladora necessidade de algum credo pelo qual viver, alguma bússola que norteará nossas escolhas de vida. E como salientou Phillip E. Johson, “aquele que afirma ser cético em relação a um conjunto específico de crenças é, na verdade, um verdadeiro crente em outro conjunto de crenças”.

Pode-se afirmar que cada pessoa possui algum modelo de universo dentro de si, que define como o mundo é, e projeta a maneira pela qual devemos viver nele. James Sire em seu livro O Universo ao Lado, sugere que cada pessoa possuí um universo mental no qual “vive”. Essa projeção conceitual surge como necessidade para responder as questões fundamentais da vida, isto é: Quem somos? De onde viemos? E qual o objetivo de termos vindo?

Na tentativa de preencher essas lacunas, desde o mais erudito aos comuns e “meros mortais”, todos possuem algum conjunto de crenças sobre como a realidade funciona e como devem nela viver. Certas crenças até são consistentes ao passo que outras não, mas essa junção fornecesse um quadro mais ou menos consistente da realidade que nos cerca.

Por exemplo, para os marxistas o comportamento humano é moldado pelas circunstâncias econômicas, já para os freudianos, tudo se resume a instintos sexuais reprimidos; a psicologia comportamental enquadra o ser humano no mecanismo de estímulo/resposta. Já para os naturalistas, nossos padrões de comportamento são apenas o subproduto da evolução biológica e do condicionamento social.

Visões de Mundo

Esse universo mental mantido pelas pessoas recebeu o título de cosmovisão. O conceito surge no romantismo alemão, tendo como tradução a palavra alemã Weltanschauung, que significa "modo de olhar o mundo" (welt, "mundo"; schauen, “olhar"). A ideia foi posteriormente apresentada ao meio cristão por pensadores holandeses [1] com o intuito de estabelecer de modo organizado as bases que respondem “quem somos”, “de onde viemos” e para onde vamos.

Para Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd [2] por exemplo, o indivíduo (sobre tudo cristão) jamais conseguirá fazer clara distinção entre as crenças e princípios da época em que vive, a menos que tenha uma clara e abrangente visão de mundo. A preocupação dos autores holandeses nunca foi tão justa, visto o aumento do trágico quadro de jovens nascidos em lares cristãos que ao ingressarem no meio acadêmico, facilmente abandonam a fé. Qual o motivo disto? O débito gigantesco que o cristianismo possui por ter se especializado basicamente no quesito de crenças religiosas (doutrinas) e devoção pessoal (comportamento ético-moral). Em termos claros, não somos ensinados a desenvolver uma cosmovisão sólida. Gastamos muito tempo em disputas inter-denominacionais circulando em termos doutrinários enquanto com facilidade somos humilhados pela contracorrente de tendências culturais. Somos exímios doutrinadores e péssimos educadores.

Como saberemos analizar e criticar cosmovisões concorrentes (que por vezes parecem ser mais atrativas), se mau entendemos “quem somos”, “de onde viemos” e onde estamos?! É urgentemente necessário reconhecer que a verdadeira religião consiste em uma prática educativa e apologética, não somente doutrinária e sentimentalista.

O Inicio do Universo

Toda filosofia ou ideologia, desde as formas mais primitivas de espiritualismo até o espiritismo moderno, do cristianismo, passando pelo marxismo ao neoateismo, todas sem exceção (embora os termos variem) se propõem a responder às mesmas perguntas fundamentais:

ORIGEM: Como tudo começou? De onde viemos?
QUEDA: O que deu errado? Qual é a fonte do mal?
REDENÇÃO: Como concertar o mundo?

No que concerne a cosmovisão judaica-cristã, às respostas para as questões sobre a origem do universo e consecutivamente a vida nele, estão centradas na figura de um Originador do Universo. Sim, o Universo teve um início e já evidenciamos isso. Há exatos 100 anos atrás, era confortável para o ateísmo a crença de que o Universo era eterno, não necessitando de uma causa. Mas, desde então, evidências científicas foram descobertas deixando-nos sem sombra de dúvidas de que o Universo realmente teve um início.

Em 1916 Einstein achou “irritante” [3] descobrir com base em sua Teoria da Relatividade Geral que o Universo não era auto-existente, ou seja, que não fosse dependente de uma causa externa, mas que parecia ser justamente um gigantesco efeito de uma causa. Em 1919, o cosmólogo britânico Arthur Eddington confirmou que a teoria da relatividade era realmente verdadeira — o Universo não é estático — ao analisar um eclipse solar. Por fim em 1927, o astrônomo Edwin Hubble evidenciou que Universo parecia estar em expansão de um único ponto no passado distante ao estudar as galáxias observáveis.

Agora entenda, tudo o que teve um começo indubitavelmente teve uma causa. Se o Universo teve um início, então teve uma causa! Até mesmo o famoso ateu David Hume entendia essa lógica quando afirmou: "Nunca fiz a tão absurda proposição de que alguma coisa possa surgir sem uma causa”. [4]

A Causa do Universo

Uma vez que a ciência evidência que o Universo teve um começo, então o Universo deve ter tido uma causa, e como Francis Bacon certa vez disse que “o verdadeiro conhecimento só é conhecido pela causa” [5], sendo ele pai da ciência moderna, entende-se que fazer ciência é fazer justamente uma busca pelas causas, tentar descobrir o que causou o quê.

Ainda seguindo sob a ótica da astronomia, gostaríamos de citar Robert Jastrow que além de trabalhar como diretor do Observatório de Monte Wilson, é fundador do Instituto Goddard para Estudos Espaciais, da NASA e autor do livro Deus e os Astrônomos. Embora o título possa parecer controverso tendo em vista as impecáveis credenciais do cientista, o mesmo deixa claro seu posicionamento afirmando que “quando um astrônomo escreve sobre Deus, seus colegas acham que ou ele está ficando velho ou maluco. No meu caso, deve-se entender desde o início que sou agnóstico em relação aos assuntos religiosos”.[6]

Sob esse contexto quanto ao posicionamento pessoal de Jastrow, é interessante notar como o agnóstico cientista após explicar algumas das comprovações do Big Bang, descreve um surpreende paralelo entre a cosmovisão bíblica e os achados científicos da astronomia, declara:

“Agora vemos como a evidência astronômica leva a uma visão bíblica da origem do mundo. Os detalhes divergem, mas os elementos essenciais presentes tanto nos relatos astronômicos quanto na narração do Gênesis são os mesmos: a cadeia de fatos que culminou com o homem começou repentinamente e num momento preciso no tempo, num flash de luz e energia.” [7]

Embora seja de conhecimento geral que a cultura judaica-cristã apresente um Ser eterno como a causa do Universo, há também inúmeras evidências cientificas que apontam para a mesma conclusão.

Qual a Causa de Deus?

Por vezes, quase como uma saída pela tangente, a velha questão sempre é levantada: mas então quem ou o que originou Deus? Para respondermos a essa questão temos que entender de modo simples que a Lei da Causalidade não diz que TUDO precisa de uma causa, mas sim que tudo que VEIO à existência possui uma causa. Deste modo, a figura de Deus recebe tal título justamente por não ter vindo a existir, mas ser eterna, isto é, sem uma causa, e é justamente isso que o torna Deus, a eterna incausabilidade.

Embora o ateísmo possa protestar que “se podemos ter um Deus eterno, então também podemos ter um Universo eterno”, temos que ter em mente que de fato só existem duas possibilidades: ou o Universo é eterno, ou alguma coisa fora do Universo é eterna. Uma vez que as evidências cientificas contestam a eternidade do universo, resta-nos apenas uma opção: alguma coisa fora do Universo deve ser eterna.

Então, a despeito do que Albert Einstein e tantos outros possam ter evidenciado a cerca do Universo, qual é a proposta judaica-cristã para a causa, o Originador? Qual o conceito de Deus apresentado pelos textos sagrados que sustentam sua visão de mundo? E por que “um” ou “o” Deus e não os deuses propostos por inúmeras outras culturas? Essas e outras questões é o que precisamos clarear.

Continua...

Referências
1 - Nancy Pearcey - Total Truth, p. 18
2 - Ibidem, p. 19
3 - I Don’t Have Enough Faith to Be an Atheist, p. 52
4 - J. Y. T. GREIG, ed. The Letters ofDavid Hume, 2 vol. New York: Garland, 1983, v. 1, p. 187.
5 - The New Organon (1620), reimpressão, Indianapolis: Bobbs Merrill, 1960, p. 12
6 - God and the Astronomers, p. 11.
7 - Ibidem, p.14

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A Bondade em Detrimento a Existência de Deus


O primeiro ponto a ser definido sobre a questão deve ser a distinção entre ser bom sem acreditar em Deus e ser bom sem a existência de Deus. É evidente que a despeito da crença encontramos pessoas de boa índole, que conduzem suas vidas embasadas pela moral e pelo bem. Assim como é nítido o sentido contrário, isto é, pessoas que advogam uma crença religiosa e desregradamente conduzem sua vida.

Deste modo, a questão em voga é: podemos ser bons SEM Deus? A provocação propõem uma investigação sobre a natureza dos valores morais, ou seja, são eles apenas convicções sociais? Expressões de preferências pessoais? Ou de alguma forma são válidos independente da disposição social ou preferencia pessoal? E se o forem objetivos desta forma e não subjetivos, qual o fundamento para tamanha objetividade?

Cabe lembrar que o debate não é novo e também não se trata de uma falácia, mas de um sofisticado raciocínio filosófico. Haja vista o professor de filosofia moral da Universidade de Cambridge William Sorley, uma das maiores referências para o estudo com sua obra de 1918 Moral Values and the Idea of God [Valores morais e a ideia de Deus].

Pois bem, o debate gira em torno da subjetividade ou objetividade dos valores e deveres morais. Para distinguir ambos, pontua-se que objetivo é “independente da opinião das pessoas” e subjetivo é “dependente da opinião das pessoas”. Deste modo, afirmar que existem valores morais objetivos significa que algo é bom ou mau independente do que as pessoas pensam a respeito, do mesmo modo deveres morais objetivos são certas ações que independente do que as pessoas pensem sobre, algumas serão certas e outros erradas.

Por exemplo, afirmar que o holocausto foi objetivamente errado é dizer que ele foi errado ainda que os nazistas pensassem ser correto. De outro modo, se não há um padrão objetivo e os valores e deveres morais são subjetivos, dependentes da opinião pessoal, temos espaço para que o nazismo seja bom e os atos de Madre Tereza sejam maus.

BUSCANDO AS ORIGENS

Tradicionalmente os valores morais tem sido baseados na figura do Deus judaico-cristão, que é a fonte do bem supremo segundo a cosmovisão. Mas se Deus não existe, qual é a base para nossos valores? Alias, qual o motivo para acreditarmos que os seres humanos possuem valores morais?

Do ponto de vista naturalista (a forma de ateísmo mais difundida), as únicas coisas que existem são as descritas por nossas teorias cientificas. Exclui-se por tanto todas as questões metafísicas, isto é, aquilo que não pode ser testado por um método. Logo, cabe lembrar que no quesito moral a ciência é neutra, afinal de contas, não é possível encontrar valores morais em um calculo de física por exemplo. Por tanto, para essa cosmovisão os valores morais não existem na realidade e nossos padrões de comportamento são apenas o subproduto da evolução biológica e do condicionamento social. Deste modo, tudo que nos resta é crer que somos uma criatura simiesca em uma partícula do universo atormentada por delírios de grandeza moral.

Se a realidade da existência de Deus for falsa, por que deveríamos ter algum dever moral? Quem ou o que nos apresentaria esses deveres? E por que deveríamos cumprir? Por que sermos misericordiosos por exemplo? Colocando em termos práticos, do ponto de vista darwinista a humanidade é uma raça animal evoluída e animais não possuem deveres morais uns para com os outros. Quando um leão cassa sua presa ele apenas cassa, não assassina. Quando uma abelha mata sua prole de fêmeas férteis para garantir o posto de rainha na comédia[1], ela apenas garantiu seu posto, não cometeu infanticídio, bem como quando um macho força cópula com uma fêmea, ele não comete estupro.

Embora a explicação evolutiva aponte para o estupro e incesto como algo não vantajoso biologicamente para a espécie e por isso tenha se tornado um tabu, essa perspectiva não demonstra em nada que incesto e estupro são realmente errados, sem contar é claro que tabus podem ser quebrados! Logo, quando um macho humano comete estupro, ele não está fazendo nada de mais grave do que um ato deselegante, pois somos animais sem deveres morais com valores subjetivos.

O leitor pode achar neste momento que o texto segue tendencioso, e que as implicações do ateísmo não são realmente assim, pois bem, Randy Thornhill e Craig Palmer são os autores do livro A Natural History of Rape [História Natural do Estupro] e como evolucionistas que são, afirmam que o estupro é uma conseqüência natural da evolução, "um fenômeno natural e biológico, produto da herança evolucionária humana", semelhante a coisas como "as manchas do leopardo e o pescoço comprido da girafa"[2].

Neste contexto, o assassinato, o infanticídio e o estupro não podem estar objetivamente errados justamente por não existir uma lei moral objetiva mas apenas elementos químicos observáveis em laboratórios. Portanto, os darwinistas coerentes com sua visão de mundo podem apenas sentirem aversões pessoais quanto a estes atos, mas não considera-los moralmente errados.

FOCINHO DE PORCO NÃO É TOMADA

Não devemos confundir as coisas, por isso cabe lembrar que não estamos cometendo uma redução ao absurdo afirmando que todos os ateus ou evolucionistas são pessoas más. Não há motivos para se pensar que a não crença em um Legislador Moral seja um fator que impossibilite qualquer um de viver uma vida boa e descente. Também não se está argumentando que seja necessário crer em Deus para reconhecer o valor de amar nossos filhos. Devemos também admitir que é muito provável que seja possível elaborar um sistema ético sem fazer referência ao Divino, basta partirmos do reconhecimento do valor intrínseco à vida humana.

Logo, a questão central do argumento não é se há necessidade de acreditar em Deus para ter uma moralidade objetiva, mas sim se há necessidade de que Deus exista para que exista uma moralidade objetiva.

EXISTEM VALORES MORAIS OBJETIVOS?

Por vezes o argumento mais popular contra a existência de Deus é a presença caótica do mal no mundo. Contudo em geral o ateísmo estagnam na afirmação de que seria mais lógico acreditar que um Deus bom e justo não exista mediante esse contexto do que tentar compreender de que maneira o mal e Deus possam coexistir. Embora esse não seja o foco do debate, há um detalhe que tem sido passado por alto neste conhecido dilema de Epicuro, isto é, de que modo o ateísmo sabe que o mundo é injusto?

Clive S. Lewis, uma das maiores referencias em Literatura Medieval e Renascentista do século XX, professor de Oxford e Cambridge, por anos defendeu o ateísmo até se deparar com a controvérsia do dilema proposto. Declarou: "Como ateu, meu argumento contra Deus era que o Universo parecia cruel e injusto demais. Mas de que modo eu tinha esta idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha está torta até que tenha alguma idéia do que seja uma linha reta. Com o que eu estava comparando este Universo quando o chamei de injusto?” [4]

A conclusão é logicamente sólida: não podemos saber o que é mal a não se que saibamos o que é bem. E não há como saber o que é o bem a não ser que exista um padrão objetivo fora de nós mesmo (transcendente), caso contrário, qualquer objeção ao mal nada mais é do que opinião pessoal e subjetivamente insustentável.

Sem um padrão objetivo de justiça, a injustiça não tem sentido, não existe mal objetivo e o Holocausto Nazista jamais poderia ter sido condenado, a menos que como humanidade apelássemos para um padrão universal de bem, e é o que fizemos. Logo, uma vez que todos nós sabemos que o mal existe, então também existe objetivamente o bem.

Por fim, afirmar que “não existem valores morais objetivos” é o mesmo que sentar em uma cadeira sem assento, pois a pessoa que nega todos os valores valoriza o seu direito de negá-los, além de querer que todo mundo a valorize como pessoa, embora negue que existam valores nas pessoas. Insistir nesta insustentável cosmovisão é manter-se na ilógica de não ver nenhum valor moral objetivo atuando no mundo, mas perceber que de fato o mal é moralmente condenável.

Diante disso, não é de admirar que Bertrand Russell, um dos maiores defensores do ateísmo confessasse que não podia viver como se os valores morais fossem meramente uma questão de gosto individual e que ele, portanto, achava seus próprios pontos de vista “inacreditáveis” afirmando "não saber a solução”. [3]

A MORALIDADE PODE EXISTIR SEM UM LEGISLADOR MORAL?

Sabemos que ainda há questões sobre a moralidade que envolvem outros fatores para debate, e que cada um deva ser bem definido para evitar confusão. Contudo, tentando ser o mais claro e pontual possível, cabe lembrar que embora possa-se debater sobre os valores de culturas ou indivíduos diferentes, presumindo assim que existe subjetividade e não objetividade moral, deve-se entender que no momento em que julgamos um conjunto de idéias morais melhor que outro, estamos em realidade mensurando ambos de acordo com um padrão objetivo.

Se um conjunto se conforma melhor ao padrão do que o outro, o padrão usado para a medida é, de certo modo, diferente, a parte de ambos. Nesse momento, estamos de fato comparando ambos com alguma moralidade real, admitido que existe uma coisa chamada certo real, independentemente daquilo que as pessoas pensam, e que as idéias de algumas pessoas aproximam-se mais desse certo real do que outras. Pense da seguinte maneira: se as suas idéias morais podem ser mais verdadeiras e as dos nazistas menos verdadeiras, então deve haver alguma coisa — alguma moralidade real — para que elas sejam consideradas verdadeiras. [5]

Logo, o indivíduo que moraliza pressupõe valor intrínseco em si e transfere o valor para a vida de outro, considerando a vida digna de proteção (concordamos que genocídio judeu foi uma atrocidade). Um valor transcendente, isto é, que está a parte dos conjuntos em avaliação deve provir de um Ser (objetos e animais são amorais) de valor transcendente. No entanto, segundo a cosmovisão naturalista em que apenas existe matéria e nada mais, não pode haver nenhum valor intrínseco, mas sabemos que há, e agimos de tal forma. Até mesmo filósofos relativistas reconhecem a objetividade moral quando não esperam que suas esposas sejam relativamente fieis a eles. Todos em sã consciência não desejam ser traídos, ainda que sejam traidores.

Resumindo a ópera, quando afirmamos que existe algo chamado mal, é preciso supor que existe algo chamado bem, e para a existência do bem é necessário existir uma lei moral por meio da qual se distingue entre bem e mal. Por fim, quando se supõe uma lei moral, é preciso pressupor um legislador moral, isto é, a origem da lei moral. [6]

Em termos filosóficos, a equação lógica se estabelece assim:
• Os valores morais objetivos só existem se Deus existir;
• Os valores morais objetivos de fato existem;
• Logo, Deus existe.

Para encerar, J. L. Mackie, um marcante ateu e questionador da existência de Deus admite pelo menos essa relação lógica, ao dizer: "Podemos alegar [...] que características objetivas, intrinsecamente normativas, alheias às naturais, constituem um grupo de qualidades tão estranhas que pouco provavelmente teriam surgido do curso normal dos acontecimentos sem um Deus todo-poderoso que as criasse”. [7]

Desse modo, a lógica nos leva conclusão de que nada pode ser intrínseco, transcendente e normativamente bom sem que haja também um Ser com as mesmas características e que tenha projetado o Universo dessa forma.


Referências

[1] CharlesDarwin - The Descent of Manand Selectionin Relationto Sex, p. 100
[2] A Natural History of Rape: Biological Bases of Sexual Coercion. Cambridge
[3] Carta ao editor, Observer. London, 6 de outubro de 1957
[4] C. S. Lewis - Mere Christianity, p. 45
[5] ibidem, p. 25
[6] Ravi Zacarias - A Morte da Razão, p. 46
[7] Citado em Moreland, J. R Reflections on Meaning in Life without God, Trinity Journal NS9, 1988, p. 14